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Luto na arte e na democracia da bola.


Texto: "Sócrates Brasileiro, craque e cidadão", de Túlio Velho Barreto.



Na história do futebol brasileiro poucos jogadores se destacaram tanto dentro quanto fora das quatro linhas como Afonsinho, Reinaldo e Sócrates. No caso deles, porque associaram esporte e cidadania. 

Craques consagrados, os três defenderem direitos individuais e coletivos dos jogadores, tiveram coragem para peitar a arcaica e autoritária estrutura do nosso futebol e assumir posições políticas contrárias à ditadura militar (1964-85), mesmo atuando profissionalmente em tempos sombrios. 

O que eles fizeram em campo está na memória de quem os viu jogar. O que eles fizeram fora está nos livros de história. E vale sempre lembrar. 

Afonsinho despontou no Botafogo (RJ) ao lado dos futuros tricampeões mundiais Jairzinho, Gérson e Paulo César Caju. Mas logo despertaria a ira do conservador treinador Zagallo e dos dirigentes botafoguenses por usar cabelos e barbas longas, combater as concentrações e lutar para ser dono de seu próprio passe. 

Ganhou a quebra de braço contra a cartolagem em 1971, quando a Justiça lhe concedeu passe livre. Preterido pelos que comandavam a seleção, peregrinou por diversos clubes e nunca mais deixou de ser considerado injustamente um jogador-problema. 

Em seguida, veio Reinaldo. 

Durante a ditadura, o ídolo do Atlético Mineiro concedeu inúmeras entrevistas contestando o regime e defendendo a convocação de uma Assembléia Constituinte. 

Em campo, quando marcava um gol – e foram muitos – comemorava com o braço erguido e o punho cerrado, reproduzindo o símbolo do socialismo, o que desagradava os dirigentes esportivos e a caserna. (Gesto que logo seria usado por Socrátes.) 

Em campo, sofreu com zagueiros violentos; fora, com a perseguição dos conservadores e dos militares, que tentavam enquadrá-lo. 

Finalmente, chegou a vez de Sócrates. 

Ao lado de Wladimir, Casagrande e do dirigente Adílson Monteiro Alves, Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira foi o grande líder da chamada Democracia Corinthiana.

No início da década de 1980, quando a ditadura militar agonizava e a sociedade se mobilizava pelo retorno das eleições diretas para presidente da República, o movimento foi um sopro de democracia em meio ao autoritarismo na sociedade e no nosso futebol. 

Além de incorporar frases e símbolos relativos à campanha pelas Diretas Já, em adereços que usava, as mudanças ocorridas na estrutura e na gestão do futebol corinthiano representam, ainda hoje, experiên cia única. Sem esquecer os títulos conquistados pelo time naqueles anos. 

Homenageado pelo músico, compositor e escritor José Miguel Wisnik, torcedor declarado do Santos, em canção do simbólico título “Socrátes Brasileiro”, sua morte precoce, aos 57 anos, deixa uma lacuna imensurável não só para os que acompanharam sua trajetória dentro e fora do campo, mas também para aqueles que, sendo mais jovens, como disse um emocionado irmão meu, fugindo do lugar comum, amam não apenas o Corinthians, não apenas o futebol, mas o próprio País. 

Por feliz coincidência, a identificação deste gênio do futebol e cidadão exemplar com o Brasil, que tanto amou, ficou registrada para sempre logo em seu batismo. 

Que venham outras homenagens, ainda que tardia, como dar-lhe o nome do novo estádio do Corinthians, para que, parafraseando Nelson Rodrigues, ali o lembrem eternamente multidões de torcedores... 



 *Túlio Velho Barreto é pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), vice-coordenador do Núcleo de Sociologia do Futebol (UFPE/Fundaj) e torcedor do Náutico.



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